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​Os seres humanos provaram e gostaram da comunicação à distância ou, numa linguagem refinada, da telecomunicação.

Comecemos por ver como era dantes. Dantes, havia a comunicação de proximidade, o que exigia a presença física daqueles que entre si comunicavam: De cara a cara, olhos nos olhos, de mãos dadas, abraçados, à distância de um murro, a acenarem-se ao longe, ao cruzarem-se um com o

outro, na fila da bilheteira, fosse ela do comboio ou do cinema, sentados à mesma mesa, a rodopiarem na pista de dança, a acariciarem-se, a berrarem um com o outro, a segredar-lhe aos ouvidos, a exalar fedores pestilentos ou fragrâncias de patchuli ou rosa bacará. Mais longe ou mais próximos, a comunicação fazia-se pelos sentidos: Escrutinava-se a multidão para encontrar uma pessoa e vestia-se de maneira a ser notado. Gritava-se impropérios ou chamamentos ou ciciava-se palavras meigas ou segredos. Lavava-se e perfumava-se para atrair as atenções e os desejos ou marcar distâncias, mas os odores naturais eram muitas vezes preferidos. As peles tocavam-se e electrizavam e transmitiam calor ou refrescavam-se. As lágrimas sabiam a mar e evocavam a saudade.

Vieram os telefones, as telefonias, as televisões, as aparelhagens sonoras, os computadores, a internet, o geoposicionamento por satélite, a fotografia e a música digitais e as misturas disto tudo nos smartphones e tabletes. Estabeleceram-se os serviços de caixa de correio de voz, correio electrónico, chat, mensagens por texto, videochamada, o blogue, os social media. Há promessas, que vão ser cumpridas, de tridimensionalidade e estereofonia perfeitas, de sensações tácteis, olfactivas e proprioceptivas. Foi-se instalando em surdina a comunicação à distância nos nossos ambientes e nas nossas vidas, as pessoas provaram e gostaram.

A comunicação à distância dá-se, precisamente, à distância e in absentia, sendo muitas vezes em diferido. Não olhe para mim, olhe para o aparelho e ele fará o resto.

 

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Ela passa o dia sentada junto ao ecrã a receber e a responder a emails e aspira pela chegada da hora em que irá estirar o corpo todo no ginásio. Quando chega tarde a casa vai tão estoirada que só quer abandonar o corpo na mesma cama onde se encontra outro corpo abandonado. Ele está na paragem de autocarro visivelmente agastado pelo facto de não ter wireless e não nota na enervação que está a sofrer a esplêndida rapariga que espera também ao seu lado com a bateria do telemóvel esgotada. O facto de se roçarem um no outro foi meramente casual e prontamente esquecido. No futuro, as pessoas hão-de roçar-se umas nas outras para gerar energia para carregar os telemóveis.

 


"Oi!
Tas aí, mana?"
"Oi
Tou, mano"
"Olha
Passa-me a garrafa de kokakola
Plizz!"
"Ya, mano
Aki vai"


Decididamente, os seres humanos provaram e gostaram da comunicação à distância.