Está um daqueles dias que não apetece.

 
     
  20191125Aparentemente passa-se tudo "lá fora", no mundo. Chove a rodos. A água a cair do telhado do alpendre, o lado que não tem algeirós, faz estrondo de cascata. Está sombrio, o verde dos sobreiros empalideceu como numa fotografia sem cores. A temperatura ambiente do interior não dá conta de si, escondeu-se de mim para que não a sentisse. No silêncio da casa, ouve-se o tic-tac dos relógios baratos espalhados por cima de todos os móveis. Aparentemente o mundo está desanimado. Parece que desistiu de ser um mundo e que abandonou a pessoa que nele habita, eu.  
     
 

Nem tenho, neste preciso momento, o mundo de outra pessoa para partilhar. Estou só, mergulhado num corpo e numa natureza indiferentes à minha existência. Um corpo que me atormenta com o seu desgaste, como um carro muito usado e sem manutenção, mas, mesmo assim, indiferente à minha existência. Um corpo que constantemente me manda à cara um "tu não existes, quem existe sou eu e ..., aviso-te!, por pouco tempo mais".

E o corpo está mergulhado numa natureza, que eu julgo que é o mundo. Era bom que fosse! O mundo tem uma origem e um destino que eu criei livremente, que eu iluminei com o meu lumen naturale, que eu dispus criando jardins e colocando criaturas que os habitam, que eu achei belo ao ponto de me enternecer com a minha própria obra. Vem a natureza, quando lhe apetece, não pede licença, não dá explicações, interfere, desalinha, desmoraliza.

Eu a pensar que faço milagres: mobilizo o conhecimento, aplico tecnologias, faço danças e imprecações, digo rezas e profiro maldições.

 
 

É então que a chuva e a escuridão se instalam "cá dentro".

Na realidade, não se instalam. O olhar volta-se para dentro e descobre que é a tempestade, o estrondo, o seu lodaçal e a sombra que escapam lá para fora, para o mundo, em tropel desenfreado. Por outra porta, os 4 cavaleiros voltam a entrar, e instala-se o carrossel. E a gente anda ali num rodopio de fim-do-mundo. E eu agarrado à teta de uma rinoceronte de madeira.

 
  E la nave va.  

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