AS CLASSIFICAÇÕES


A importância de um nome comum ...

Quando ando pelo campo e, por qualquer motivo, uma planta me prende a atenção, a primeira coisa que eu vou querer saber é como se chama essa planta. Não o nome daquele indivíduo concreto, obviamente, mas o do grupo ou classe a que pertence. Não me ocorreria nenhuma razão para dar um nome a esta rosa concreta, ao contrário do que faço com os gatos que são indivíduos e com quem estou familiarizado, mas sei que ela é, pelas 

suas características únicas, não a rosa, mas uma rosa. Sei que uma pera é uma pera e que uma maçã é uma maçã. Rosas, peras e maçãs são plantas com características muito diferentes e os nomes ajudam a sublinhar e a recordar essas diferenças. Porém, quando oiço falar de uma certa flor pelo seu nome e não associo esse nome a qualquer das flores que eu conheço, podem dar-se vários casos: ou conheço a planta sem nunca ter aprendido o nome, ou conheço a planta mas por um nome diferente, ou reconheço o nome como sendo de uma planta mas nunca vi a planta ou uma representação sua, não sabia de todo que havia uma planta com esse nome.

Mas um nome comum não basta ...

Como já referi, uma planta pode ter vários nomes populares. Também acontece um nome corresponder, para diferentes pessoas ou em diferentes regiões, a plantas diferentes que nada têm a ver umas com as outras a não ser devido a semelhanças de forma ou cheiro superficiais. Isso acontece por variadas razões: em alguns casos, devido a ignorância, as pessoas podem atribuir a uma planta, cujo nome desconhecem, o nome de uma outra que se lhe assemelhe; em muitos casos, o nome da planta muda de uma região para outra ou mantém-se, mas com uma fonia ou grafia ligeiramente modificadas; às vezes, as características distintivas da planta são insuficientemente conhecidas ou reconhecidas para um entendedor poder classificar a planta e atribuir-lhe correctamente um nome.

Os animais que se agitam como loucos ...

Os animais dividem-se em a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) amestrados, d)leões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães soltos, h) incluídos nesta lista, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel finíssimo de pêlo de camelo, l) etc, m) que acabam de partir o jarrão, n) que de longe parecem moscas

Jorge Luís Borges, "O idioma analítico de John Wilkins", Prosa completa, vol. 3, pag.111.  

 

O para quê de uma classificação.

O estabelecimento de classificações visa, por um lado, favorecer o reconhecimento de entidades, como disse acima, e, por outro lado, agrupá-las em conjuntos lógicos que facilitam a compreensão das suas propriedades e a memorização da sua multiplicidade. Parodiando Borges, poderia dizer:

As plantas dividem-se em a) pertencentes ao Sítio do Tremontelo, b) de plástico, c) envasadas, d) rosas, e) árvores das patacas, f) esplendorosas, g) ervas daninhas, h) incluídas nesta lista, i) que dançam com o vento, j) inumeráveis, k) desenhadas com um pincel finíssimo de pêlo de camelo, l) etc, m) que acabam de rachar o vaso de barro, n) que de longe parecem cabelos

 

 

A classificação é um processo cognitivo natural resultante da actividade normal do cérebro humano (e, provavelmente, de outros cérebros animais). No ser humano adulto, as classificações culturalmente produzidas estão intimamente relacionadas com o vocabulário. O processo é realizado em várias etapas:

• O primeiro passo consiste em isolar (abstrair) características ou propriedades relevantes, como a morfologia das plantas, funções, número e cor das pétalas, composição química, lugar, época do ano, duração, e usar apenas essas.

• O segundo, em agrupar em classes exclusivas as entidades com as mesmas propriedades (o que não é o caso da classificação de Borges citada acima!).

• O terceiro passo, estabelecer o sistema de classificação, ou seja interligar todas as classes entre si a partir de um critério qualquer que se julgue válido. Por exemplo, estabelecer um número mais reduzido de classes genéricas que incluam as classes mais específicas. Uma classificação é, como a disposição de livros numa biblioteca em armários, estantes e prateleiras, ou de ficheiros electrónicos em directorias e 'drives', uma forma de organização que permite identificar um grande número de identidades e recordar as principais propriedades que definem cada uma.

As classificações científicas.

A forma mais cómoda de classificar entidades com centenas de milhares de tipos diferentes é recorrer a uma classificação científica. Uma classificação é científica quando é organizada de acordo com uma metodologia científica e com os saberes científicos dessa área.

 

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