O que os bichos não dizem mas fazem:

1. a Laranjinha.

28 de novembro de 2008

 

SEXTA-FEIRA, 28 DE NOVEMBRO DE 2008

O que os bichos não dizem mas fazem: 1. a Laranjinha.

 
Conhecem os "meus" (não é possessivo, é apenas referencial) bichanos actuais. Temos uma família constituída pelos meus seguidores e a tia Laranjinha. Há que acrescentar-lhe o Black que parece ser de muitas famílias ao mesmo tempo e não tem paternidade confirmada em relação a nenhum dos menores, salvo a Farrusca em relação a quem pende uma paternidade putativa.

Pondo a coisa a claro, os meus seguidores são a mãe Ratita e os seus dois filhos, o Fofinho e a já mencionada Farrusca, também conhecida por a Bailarina.

Tem, cada um, características que lhe são exclusivas o que faz deles Pessoas. Assim mesmo: com um P grande. E as marcas a que me refiro não são físicas, são morais.

Comecemos pela Laranjinha. Deve o nome, que lhe pôs o Daniel, a uma minúscula mancha alaranjada no alto da cabeça. De resto é de cinzento tigrado, como a irmã Ratita e outra irmã sem nome nem marcas particulares, mais estreita e alongada que a Ratita, que aparece muito raramente. As três são filhas da mesma ninhada da Maria, há muito desaparecida, tal como o Bolinha e o Mião, os irmãos machos que foram fazer pela vida para outras paragens.

A Laranjinha é, de seu particular, uma excelente caçadora, gata vadia, ladra atrevida e rufia. De pequena vinha comer com os seus irmãos da comida de lata que lhes punha nos pratos. E ficavam por ali no repasto sob o olhar vigilante da Maria - sempre com um olho nos perigos distantes e o outro posto em mim - tão próximos que me permitiam uma, quando muito duas festinhas nos pelos sedosos. Não a Laranjinha, que me mostrava os dentes e arredava. Numa das minhas infelizes abordagens àquela pequena fêmea, tão arisca e tão cheia de personalidade, deitou as gadanhas à mão que a tentava acariciar e puxou como quem esventra um coelho. Tendo a mão ensanguentada e ferrada, dei-lhe um piparote com a outra disponível e projectei a gata à distância de umas duas ou três passadas largas. Daí para cá olhamo-nos com desconfiança e distanciamento.

As gatas engravidam ao mesmo tempo e permanecem próximas com as suas ninhadas para se auxiliarem mutuamente. Não misturam as crias no mesmo ninho mas ficam por perto umas das outras. Quando há movimentações, e todos os dias é preciso ir à caça para satisfazer doze pequenas bocas, revezam-se nas funções de caça e de guarda. Juntam as ninhadas no sítio com maior protecção e, enquanto uma as protege, muitas vezes auxiliada por um pai que sabe quando há-de aparecer, a outra sai para uma incursão venatória. As refeições são diversificadas: na maior parte, a dieta é coelho. O desgraçado é aberto e despido da sua manta de pelo, são-lhe abertos alguns orifícios nos locais apropriados, e vai sendo esvaziado, primeiro do sangue, depois da gordura, das vísceras e, finalmente, da massa muscular já cozinhada pela exposição ao ar livre durante dois a três dias. As variantes são os melros, outras aves, cobras e lagartos. Nas fase de transição entre a aleitação e uma maior mobilidade dos gatinhos, o sítio fica um chavascal pejado de ossos, penas, pelos, escamas. Ratos e ratazanas já há muito que os deixei de ver. O que vejo, sim, é as gatas sempre de atalaia ao pé da fossa.

À medida que crescem, as crias vão diminuindo em número, geralmente de seis para duas, para cada gata. Não ficam vestígios no local, é para mim um mistério ainda por desvendar. As gatas não parecem muito incomodadas com o desaparecimento. Mas, no final de fase, tornam-se mães galinhas e andam sempre com o coração aos pulos em cima dos dois meninos jesuses restantes.

Das duas, a Laranjinha é a caçadora mais eficaz, assim como a Ratita se especializou na maternage. Enquanto a Laranjinha faz a sua sortida, a Ratita junta os quatro ou cinco sobreviventes no espaço entre o contentor e a sebe e fica por ali a espreitar, nunca se deixando adormecer. Se estou por ali, conversamos os dois, mas fico sempre do lado do anexo e ela do lado do contentor. De vez em quando aparece a Laranjinha com um coelho com o dobro do seu tamanho na boca. Sempre em corrida, surge vinda dos lados da horta, passa em corrida entre a irmã e a sebe e manda com o coelho contra o contentor, desaparecendo velozmente na direcção do terreno do meu vizinho Paulo. Não é dizer que a Ratita não seja boa caçadora. Estou só a afirmar que a Laranjinha é uma caçadora olímpica.

Quando dou comida de lata aos petizes, elas autorizam-me que eu passe as tigelas pela sebe e dispõe-se uma de cada lado a proteger cada entrada do túnel formado com o contentor. Têm uma organização tipicamente militar que, muito inteligentemente, dá prioridade à segurança e à diminuição do risco. E enquanto aquele pessoal não cresce a confiança dada aos amigos bípedes é parcial e condicional.

Quando estão todos à mesa do banquete que lhes proporciono uma vez por dia (para não se desabituarem de caçar), o pessoal, maior e menor, anda por ali à vontade e eu misturado no meio deles, às vezes com vontade de dar uma trinca nos pedaços de coelho com bom aspecto misturados com ervilhas e cenouras estufadas cortadas aos pedacinhos. A Laranjinha não se mistura. Fica por perto com um olho em mim, outro nas tigelas e nos comensais. Inesperadamente, lança-se em jacto sobre uma das tigelas que tem uma folga para mais uma cabeça, arranca três ou quatro pedaços de carne e vai comer para longe. Só sabe caçar e roubar.

[A fotografia é uma das raras em que aparece a Laranjinha. Quando lhe aponto a máquina e disparo, só fica registado o rabo. Nesta, tirada em 30 de Outubro do ano passado, ainda era jovem. É a que está a comer: vê-se bem a manchinha laranja entre as orelhas]

 

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