A virgem e o espinheiro

in O Tremontelo

23 de janeiro de 2007

posted by Perdido@19:31

 

O termo espinheiro refere-se a um conjunto de arbustos do género crataegus, da família das rosaceae,

que, apesar dos cerca de 500 anos de idade que podem atingir, dos seus espinhos e da sua madeira extremamente dura, continuam a ser um símbolo de beleza e fineza. Contudo, era da sua madeira dura como o ferro que antigamente se cortavam os cepos dos suplícios. Foram encontrados vestígios de caroços, em ruínas de cidades remotas, comprovando que na Pré-História era usado como alimento. Os frutos vermelhos do pirliteiro, globosos a ovóides, e conhecidos em Portugal por pilritos ou pilretes, são, desde há muito tempo, utilizados pelas suas aplicações diuréticas, adstringentes, antiespasmódico, febrífugo e hipotensor. A sua utilização é indicada para os estados de ansiedade, angústia, sono e nervosismo. Recentemente, médicos americanos puseram em evidência a sua poderosa acção cardíaca provavelmente devida aos seus componentes: pigmentos flavónicos, aminas, derivados terpénicos, histamina, tanino e vitamina C.


As espécies mais conhecidas são o crataegus laevigata (ou crataegus oxyacantha) e o crataegus monogyna. Este último é, na realidade, o espinheiro alvar, conhecido também por abronceiro, branca-espinha, cambrulheiro, combroeiro, escalheiro, escrambrulheiro, espinha-branca, espinheiro-branco, espinheiro-ordinário, estrapoeiro, estrepeiro, pilriteiro, pirliteiro. Arbusto, ou pequena árvore que pode atingir os 18 metros, apresenta um tronco simples ou muito ramificado desde a base, formando uma copa muito variada. Ritidoma geralmente fissurado. Espinhos axilares comuns, alguns desenvolvem-se em pequenos ramos laterais terminando em espinhos. Folhas muito mais compridas do que largas, ovadas com lobos, lobos alongos, agudos ou subobtusos, margens mais ou menos inteiras ou com poucos dentes no ápice, ligeiramente coriáceas.

Sabia da presença à volta do Mediterrâneo. Era conhecido nos povos semitas, se tivermos em consideração as vezes em que é referido na Bíblia:

  • “Então, do alto do céu, gritou o anjo do Senhor: "Abraão! Abraão! Não faças mal ao menino. Agora sei que temes a Deus pois não poupaste teu filho único para me obedeceres". Abraão levantou os olhos e viu um cordeiro preso num espinheiro. Foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto em lugar do filho. Então o anjo do Senhor disse pela segunda vez: "Já que para me obedeceres não poupaste o teu filho único, eu te abençoo. Dar-te-ei uma posterioridade tão numerosa como as estrelas do céu e a areia na praia marítima. Em um dos teus descendentes serão benditas todas as nações da terra". Génesis 22:11-18)
  • “E apareceu-lhe o anjo do Senhor em uma chama de fogo do meio duma sarça. Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia.” (Êxodo 3:2).
  • "Como o espinho que entra na mão do ébrio, assim é o provérbio na mão dos tolos." (Provérbios 26:9)
  • “Foram uma vez as árvores a ungir para si um rei; e disseram à oliveira: Reina tu sobre nós. Mas a oliveira lhes respondeu: Deixaria eu a minha gordura, que Deus e os homens em mim prezam, para ir balouçar sobre as árvores? Então disseram as árvores à figueira: Vem tu, e reina sobre nós. Mas a figueira lhes respondeu: Deixaria eu a minha doçura, o meu bom fruto, para ir balouçar sobre as árvores? Disseram então as árvores à videira: Vem tu, e reina sobre nós. Mas a videira lhes respondeu: Deixaria eu o meu mosto, que alegra a Deus e aos homens, para ir balouçar sobre as árvores? Então todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu, e reina sobre nós. O espinheiro, porém, respondeu às árvores: Se de boa fé me ungis por vosso rei, vinde refugiar-vos debaixo da minha sombra; mas, se não, saia fogo do espinheiro, e devore os cedros do Líbano.” (Juízes, 9: 8-15).
  • “Agora, pois, vos farei saber o que eu hei de fazer à minha vinha: tirarei a sua sebe, e será devorada; derrubarei a sua parede, e será pisada; e a tornarei em deserto; não será podada nem cavada, mas crescerão nela sarças e espinheiro; e às nuvens darei ordem que não derramem chuva sobre ela.” (Isaías, 5: 5-6)
  • " Em lugar do espinheiro crescerá a faia, e em lugar da sarça crescerá a murta; o que será para o Senhor por nome, por sinal eterno, que nunca se apagará." (Isaías 55:13)

 

Mas, ao contrário do que eu sempre pensei, a presença do espinheiro em Portugal está suficientemente documentada desde o princípio dos tempos bem como a atracção que ele exerce sobre as virgens.

O Convento do Espinheiro situado em Évora, que dizem ser um hotel luxuoso, foi um antigo convento de frades Jerónimos do século XV. Diz a lenda que, por volta do ano 1400, a Virgem Maria apareceu sobre um espinheiro que por lá existia. Em 1412, foi edificado um oratório em honra de Nossa Senhora. Em 1458, reinava em Portugal D. Afonso V, foi fundada a igreja, dada a crescente importância deste local como ponto de peregrinação, e, posteriormente, o dito convento.

Há também em Seia, no Lugar do Espinheiro, uma Albergaria Senhora do Espinheiro. A Ermida, que se ergue no planalto, a meio caminho entre Seia e o Sabugueiro (a aldeia mais alta de Portugal) faz parte de um dos primeiros roteiros turísticos religiosos de Portugal. “A Lenda de Nossa Senhora do Espinheiro” remonta à génese da nação Portuguesa, pela figura de D. Afonso Henriques. A capela de Nossa Senhora do Espinheiro que possui uma data inscrita num muro, 1382, foi edificada à beira da estrada que liga Aldeia da Serra à Lagoa Comprida, um pouco acima da Albergaria Senhora do Espinheiro e da Capela de Nossa Senhora de La Salette.

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