A conversa que esteve em vias de desaparecer... (VII)

in O Tremontelo

7 de março de 2007

posted by Perdido@20:27

 

 

(Esta "conversa" deu-se há muito tempo, antes do carnaval, e não ficou registada porque o autor destas palavras caíu de cama com uma gripe monumental e teve, a partir daí, uma convalescência pertinaz que o derreou de corpo e de espírito. Parte da conversa, que foi mais longa do que aqui se narra, ficou esquecida, e outra teve que ser "reinventada". Em consequência, não voltei a ver o Tigre até ao fim-de-semana passado. Quando me viu, perguntou laconicamente: "não tens aparecido muito?". Retorqui-lhe que tinha estado doente. E ele: "Já estás bom? Ainda bem! Então vamos lá retomar os nossos diálogos porque deixaste-me aqui a pensar...". Mas disso falarei depois.)


- Fala-me mais disso das histórias
- Queres que te conte uma história?
- Talvez venha a querer. Mas, agora, preferia meditar sobre o mistério do pensamento humano.
- Interessa-te assim tanto?
- Sim, muito. É intrigante. As galinhas, os melros e as perdizes têm pensamentos pequeninos e redondos como os ovos; e não os conseguem encadear uns nos outros.
- Falas muito com essa gente?
- Raras vezes, pois não têm assunto que me interesse. Prefiro escutar o pensamento dos sobreiros ou dos carvalhos, que é rigoroso e lento, mas sólido e profundo.
- Gostava de saber escutar melhor o pensamento das árvores.
- Terias que ter uma disponibilidade maior, terias que reservar-lhes um tempo de que não dispões, sempre a planear, sempre a executar tarefas, a comer à pressa, a dormir só à noite e pouco.
- Nós temos as palavras. Quando as dizemos, elas atravessam o tempo numa sequência curta e vão ficando para trás, no passado. Se não precisarmos mais delas, desaparecem. Depois dizemos palavras novas que colamos às anteriores e que desaparecem também.
- E se não as quiserem esquecer?
- Se não as quisermos esquecer, escrevemo-las.
- Compreendo: usam as palavras para fixar a realidade. Mas como as palavras são mais voláteis que a realidade convertem-nas em coisas para as fixar.
- De certo modo, assim é.
- E conseguem, dessa maneira, que a realidade seja mais extensa do que a própria realidade. Porque à realidade, que é, por exemplo, a minha, acrescentam a realidade das palavras.
- Temos, antes de mais, que decidir o que é a realidade a que nos estamos a referir. Para ti a realidade é a "natureza", que é, como escreveu um dia um grande filósofo humano, "a totalidade de todos os objectos da experiência". A tua realidade é a totalidade do que tu experimentas. Nós, humanos, expandimos a realidade a todos os objectos que nos são dados no discurso.
- Estás a dar-te ares de pessoa importante. Para vocês humanos, é importante julgar que vivem, para além da vida na realidade, uma outra vida nessa outra realidade que é a das palavras: romances, drama, cinema, televisão, computadores, circo, jogos, desporto, "media", teorias, negócios, política, marketing, ciência, religião, baptismos, casamentos e funerais. Vivem tão arredados da realidade a que chamas "natureza" que a vida que experimentam viver vos parece intemporal. Tudo o que é humano centra-se à volta da morte. E cada um de vocês comporta-se como se for imortal.
- Não se passa o mesmo convosco?
- Ah!Ah!Ah! Connosco? Sabes bem que temos 7 vidas? Dá muita pica perder uma vida; sobretudo sabendo que à sétima acabou-se. Viver, para nós, é o arrepio de passar as patinhas pelo fio da navalha. Viver, para vocês humanos, é contar grandes mentiras: umas vezes, solitariamente, quando imaginam o que serão, quando reescrevem a história do que foram ou quando ficcionam os papéis que actualmente representam; outras vezes em ninhada, contando com ar sério uns aos outros, convictamente, aquilo que todos sabem ser mentira.
- Não se pode falar contigo, peludo!
- Sabes bem que não podes falar comigo, porque eu não falo. Mas, em contrapartida, sabes que podes pensar comigo que é aquilo que não consegues fazer com os teus congéneres.

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