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in O Tremontelo

29 de março de 2007

posted by Perdido@23:20

 

Enquanto não me vem a pachorra para postar aqui as mais recentes conversas com o Tigre vou partilhar alguns trechos maravilhosos de um livro que acabei de comprar. O livro chama-se, na tradução portuguesa, "o gato que veio do frio: uma fábula", escrito por Jeffrey Moussaieff Masson. Embora sinceramente não conheça este autor, os meus primeiros avanços na sua leitura despertaram-me o desejo de uma maior aproximação. Uma pequena referência no fim da contra-capa apresenta-o como um antigo estudioso de Sânscrito e autor, entre outros, de uma "Vida Emocional dos Gatos". Ora este nome diz-me alguma coisa. Procurei na minha BD Bibliográfica por "gatos" e só me apareceram "As melhores histórias de gatos", uma antologia das edições ASA e os 6 volumes dos "Gatos" do Fialho d'Almeida. Recordo o nome mas, parece-me, o seu autor viveria na Austrália com a mulher, os filhos e os gatos, uma galeria de nomes e personalidades vincadas que cresceram juntos com as crias de duas patas dando mais vida às suas vidas. Vou ter de procurar o livro em Vale de Moinhos no próximo fim de semana, já que não o encontro em Lisboa.

"Há milhares de anos, nas florestas do Sul da Índia, Billi estava empoleirado no seu ramo preferido, da sua mangueira preferida, no seu mangueiral preferido a contemplar-se. Esticou uma bela pata e a seguir outra. Lavou o focinho. Abanou a cauda. Observou as suas manchas pretas e castanhas. Que forte, que elegante, e como era fantástico, ser um gato-leopardo asiático!"

Esta passagem fez-me evocar uma imagem do Tigre em cima da oliveira ao pé da porta da cozinha a lavar-se metodicamente, a exprimir satisfação, o seu orgulho auto-contemplativo e, com os olhos semi-cerrados, a confirmar, de tempos a tempos, a minha presença. A história continua com o Billi a prestar atenção a uns miúdos indianos que ali passavam por baixo da sua mangueira preferida, a conversarem e a chamar por um cão que lhes era afeiçoado.

"- Janaka! - gritou a criança rapaz, e dali a pouco apareceu um grande cão castanho aos saltos. Ladrava excitado, corria em volta das crianças, como se não as visse havia dias, , em vez de apenas há alguns minutos, e enchia-as de beijos de cão.
Billi virou o focinho com repugnância. O que é que dava aos cães? Nada tinha contra os canídeos em particular, mas a forma como eles derramavam afecto sobre os seus amigos de duas patas era ridícula. Ainda pior era a maneira como os cães tinham abdicado da sua liberdade para receberem dos humanos a segurança de uma casa e da alimentação. Onde estava a sua dignidade? Onde estava o seu orgulho? Como podiam trocar algo tão inestimável como a independência por uma coisa tão banal como a segurança?".

"Como podiam trocar algo tão inestimável como a independência por uma coisa tão banal como a segurança?". Esta frase retinia asperamente no interior do meu crânio. "Como podiam trocar algo tão inestimável como a independência por uma coisa tão banal como a segurança?" E então percebi o elo que me faltava para compreender a re-ligação entre os humanos e os divinos: "Como podiam trocar algo tão inestimável como a independência por uma coisa tão banal como a segurança?".

 

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