Demónios e diabos

in O Tremontelo

20 de julho de 2006

posted by Perdido@19:31

 

Demónios e diabos andam juntos, normalmente, na conversa do povo e nos tratados eruditos. Mas, tratar-se-ão das mesmas pessoas, será gente afim, serão os termos permutáveis?

Na minha opinião, discordo absolutamente da identidade das criaturas. Pertencem a contextos diferentes e a eras da humanidade muito afastadas.

Ambos os termos têm origem no grego. "Daimon" era um termo corrente para designar uma entidade divina, deus ou deusa. "Diabolos" (diabo) representa o conceito de qualquer força separadora ou processo que conduz à separação e dispersão; opõe-se a "sünbolon" (símbolo) que representa o reconhecimento na unidade de duas partes distintas.

No monoteísmo na fase primitiva, os demónios são todos os deuses que, assintindo às ascenção vitoriosa do deus único, exclusivista e ciumento, não se conformam e vão à luta travando um combate desesperado para recuperar o poder sobre o Mundo ("mundus", em latim, significa "o limpo", o ordenado" como oposto a "immundus", aquele que é "impuro"; vide no grego a mesma oposição entre o "kosmos" e o "kaos"). À medida em que o resultado da luta pende para o lado do deus único, Iavé, os demónios governam cada vez mais o reino das trevas, os lugares inferiores do universo. O seu destino é a ostracização e a condenação ao esquecimento.

O cenário é de mudança e de combate. Cada parte da contenda luta pelo que julga ser seu de direito: de um lado, conservar o equilíbrio tradicional do panteão; do outro, instaurar uma ordem nova fundamentada no despotismo monista. Mas a atração do monismo é mais poderosa do que as forças em conflito: progressivamente, a legião de demónios vai-se plasmando na figura única do demónio, Satã (o "adversário", o "desafiador"), transformando uma luta entre exércitos numa contenda entre os senhores da guerra.

No monoteísmo judeu, Iavé é um deus ciumento e birrento que estabelece uma aliança "monogâmica" com o povo eleito; no monoteísmo cristão, Iavé é um deus vingativo, o estratega que prepara a derradeira e decisiva batalha, o Armageddon.

Voltaremos a este tema para esclarecer a relação entre Lúcifer (o "portador da luz") e o deus único: aquele, o ordenador e o senhor deste mundo; o outro, aquele que é, Rei dos Reis e Senhor dos Senhores.

Voltemos à questão: e o diabo?

Em termos históricos, o diabo é uma figura recente aparecida nos finais da Idade Média europeia. Sobre esta questão, remeto o leitor para "Uma história do Diabo. Séculos XII a XX", de Robert Muchembled (2003, Terramar). A demonologia moderna assenta na identificação do diabo com a figura grotesca, animal e mal-cheirosa, na liturgia dos sabbats, na tópica sulfurenta do inferno e nos processos da bruxaria. É acidental e espúria a parecença desta triste figura, peluda e cornuda, com Cernunos, o deus celta da fertilidade e da caça. O facto mais insólito destes tristes séculos em que o poder imperial e monolítico dos príncipes europeus se opôs ao sentimento de liberdade dos povos e das gentes traduziu-se na impiedosa caça e extermínio das bruxas. O fervor exterminador foi particularmente sangrento no norte protestante para calar toda e qualquer heresia que atentasse contra a ortodoxia ideológica do capitalismo em ascenção.

Dia-bolo versus o Sím-bolo: crença na multiplicidade ou crença na unicidade. O Símbolo de Niceia é "credo in unum deum, patrem omnipotentem, factorem coeli et terrae, visibilium omnium, et invisibilium."

 

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