A companheira

in O Tremontelo

22 de fevereiro de 2006

posted by Perdido@0:28

 

Seriam já umas onze horas quando começou a dar sinais da sua existência. Ao dar-me conta de que ele andava aí pelas redondezas, chamei: “An Jiiiiie?”. Ao que ele deu resposta imediata gemendo, como era seu costume, um miado muito seu que fazia lembrar um arrastado e melancólico lamento. Só para me certificar, ou talvez porque o jogo da repetição se transformara em hábito, repeti várias vezes o chamamento, só que cada vez num tom mais elevado e com um modo mais categórico: “An Jie!”. Cada vez mais aproximado, proferiu o mesmo lamento, também um tom acima do inicial e mais arrastado.Ao pé um do outro, repetimos ainda por três vezes o mesmo diálogo, enquanto ele por três vezes se entrelaçava nas minhas pernas. “Tens fome, AnJie?”. Que sim, que tinha, pois pronto se ôs resolutamente a correr à minha frente de rabo alçado em direcção ao terraço do Anexo.


Procedi à rotina do costume enquanto ele andava para ali a dar marradinhas nas minhas pernas. Limpei criteriosamente o comedouro, uma tigela amarela de plástico comprada no Intermarché do Cartaxo, abri a latinha fazendo o estalido característico ao arrancar a tampa de alumínio, a que ele respondeu automaticamente com um miado seco, e verti o conteúdo no comedouro de plástico. Arrumei o lixo e lá o deixei a bater-se, creio que com um souflé de atum e fui aos meus afazeres para a horta.
Andava a mondar, creio, um exercício repleto de flexões sobre os joelhos acompanhado da contracção dos abdominais, cujo objectivo é retirar as ervas, que do ponto de vista de um jardineiro são daninhas, pois têm um efeito nulo no canteiro e consomem as reservas nutritivas e a humidade do solo tão necessários, como escassos, para a preservação das espécies ornamentais ou comestíveis. Estaria então a mondar, pois é isso que a memória me dita embora não seja certo que essa memória corresponda aos acontecimentos desse dia ou aos de um dia próximo, quando o sinto a aproximar-se e ... espantem-se, pois também eu confesso que me espantei, lá ouvi outra vez aquele miado que parecia um lamento, mas agora mais pungente, mais confrangedor, uma directa e acutilante punhalada no sentimento humano.
Estaria ele ainda com fome? O raio do bicho comera uma lata inteira de atum, maior que a barriga dele, e vinha agora implorar mais comida? Ná! Havia engano e seria eu que estava a interpretar mal o bichano. Então que quereria ele? Disfarcei, fiz-me desentendido e continuei na monda, flecte barriguinha, flecte barrigão,gatos destes não me fazem ninhos atrás das orelhas! Mas o miado lá continuava, insistente, obsessivo, desesperado. Uhm! Só pode ser fome, é comida que ele está a pedir. “Papinhas, An Jie?”.
Acto contínuo, volta o dorso e, de rabo alçado, dispara em direcção ao anexo. Não havia dúvidas, era fome. Fui buscar outra lata, ritual de limpar o comedouro, servir, colocar o recipiente no sobrado do alpendre. O An Jie parecia doido, nervoso miudinho, a dar voltas sem eira nem beira. Parecia desorientado, à espera de alguma coisa, ou atento, como quando se aproxima da rede o cão do vizinho Paulo. Se calhar enganara-me, não tinha fome, o que iria fazer da lata aberta? Era bom para aprender a ter juízo e desta feita não me convencer de que tinha o condão de perceber a linguagem dos gatos.
De repente, desapareceu-me da vista correndo em direcção a nascente. Que comportamento estranho!
Perplexo, ficara no mesmo lugar com a lata aberta na mão a olhar para nenhures. Não sei se pensava: era daquelas raras situações em que a consciência se nos fica suspensa, como um relógio de ponteiros temporariamente sem pilhas e que volta a trabalhar com umas pancadinhas ligeiras. Ali estava eu, sem jeito, com uma lata aberta na mão, que tanto poderia ser de atum, como de vaca ou frango, assunto que era para mim irrelevante e que, para o gato, parecia ser completamente indiferente.
Nestes momentos, em que a duração do tempo é consumida de uma forma perfeitamente inútil, é que nos apercebemos de um modo trivial que existimos. E que “existir” é apenas isso: estar para ali, sem sentido, sem finalidade, sem utilidade. Será que os gatos se apercebem de que existem? Da minha observação tenho concluído pelo contrário: existem e, como tal, estão-se nas tintas para pensar nisso. Diria pela forma como pensam que são filósofos cínicos. Mas isso indignaria profundamente um gato: um cínico, como a palavra grega diz, é aquele que se comporta como um cão. Ora um gato jamais faria isso! Teríamos que inventar uma palavra nova para designar a escola de pensamento felino. Consultando o dicionário de Português-Grego concluo que gato se diz qualquer coisa como “ailuros”. Em vez de cínica, teríamos então a escola ailúrica cujo lema bem poderia ser “primum vivere, deinde philosophare”. Mas sendo isto contas de outro rosário, voltemos ao ponto em que estava de lata na mão, existindo, de consciência semi-suspensa e envergando provavelmente o ar mais idiota que jamais consegui noutras alturas.
A certa altura pareceu-me que o bicho regressava, mas vinha negro, negro como um tição, atarracado e menos ágil do que era costume. Um pouco tímido talvez. O que era deveras uma situação demasiado confusa, dado o estado de letargia a que me tinha deixado chegar.


A torpor desapareceu de vez, como nas cenas em que uma pessoa sai de um estado de hipnose com um estalido de dedos do hipnotizador. De repente, de peito branco todo emproado, com marcha compassada e ar decidido e garboso, aparece atrás o An Jie, todo ele orgulho estampado no focinho giro. Afinal, aquele ser preto, meio dengoso, meio medroso, que vinha à frente, não era o An Jie.
Afastei-me para não assustar o estranho e dar lugar à cena que se iria passar.
O An Jie apressou-se a passar à frente do gato preto e veio para ao pé de mim, ronronando e enrolando-se-me nas pernas. Eu estava apenas calado e imóvel. Voltou atrás e em paralelo com o gato preto colou-se a ele, ronronando e dando cabeçadinhas na cabeça dele. E assim progrediram os dois colados até se abeirarem da tigela amarela onde o gato preto se pôs a comer avidamente e o An Jie, sem desgrudar, cabeceava ternamente na cabeça do outro ... da outra, como não tardei a aperceber-me com este jeito que tenho de olhar logo para onde algumas pessoas me dizem que não devo.. cabeceava e olhava para mim com os olhos de um apaixonado. Assim ficaram os dois algum tempo, ela a bater-se com o atum (ou seria vaca, ou frango?), e ele, ora às marraditas, ora a olhar para mim todo vaidoso. Acabado o repasto da dama, trouxe-ma o An Jie ao pé de mim (espantosa a confiança com que ela o seguiu para abordar um estranho!) e olhando-me directamente nos olhos, coisa que um gato em situação normal jamais fará, disse-me:
É a minha namorada”.Não sei se sei porquê, baptizei-a com o nome de Julieta.

 
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