Depois de vir do pequeno-almoço, passei toda a manhã na cama, a tiritar de frio, a repuxar e a entalar o edredão sob o corpo, como um cavernícola a deitar as últimas achas na fogueira.

Não, não fui ainda “coroado” pelo vírus. Apenas estou no primeiro dia de aclimatação à orla costeira de Peniche, “à praia”, como dizemos entre nós, no meu primeiro dia de “férias”.

Porque vai este maluco para a praia apanhar frio? perguntarão. O caso tem uma explicação. A Graça adora praia. Eu, em contraste, abomino praia. Entre nós, nunca foi problema estarmos em desacordo sobre qualquer assunto. Até achamos muito saudável que cada um pense pela sua cabeça e temos o habito de exprimir sem constrangimentos o que pensamos e sentimos. O problema está em como organizamos as nossas vidas, neste caso as nossas férias. Com a sabedoria que nos dá a experiência dos anos, chegámos ao compromisso de fazer uma semana completa de férias em conjunto numa praia que não tenha, nem sol, nem areia, no caso em Peniche, hospedados no Star Inn, à distância da largura de uma estrada do Bocaxica, com visão da varanda para as dunas. Nas horas mais quentes do dia, ela atravessa a estrada para pisar areia e mergulhar no mar; eu não, assisto a tudo isso da varanda do hotel, bem agasalhado, a observar a paixão humana pela areia e a água salgada.

 

   

 Vista da varanda (foto Rui)                                                    Vista da praia (foto Graça)

Como explicar esta minha reacção ao frio, um homem habituado aos 10° negativos e às geadas dos rígidos invernos do Tremontelo? É que, ocorrendo o intervalo térmico de 50° centígrados ao longo de cerca de 300 dias, a variação anual é bastamente lenta para o corpo ir fazendo a sua adaptação. Já uma variação de 20° em pouco mais de uma hora é obra. Não é apenas um juízo estabelecido na primeira pessoa, uma mera percepção subjectiva, um dado da consciência. Saímos com 40°, marcava o termómetro do carro. Fomos directos a Rio Maior, depois em direcção a Peniche. A meio do caminho, reparámos que os valores do termómetro tinham baixado 10°, abrimos as janelas econcordámos que o ar exterior estava mais fresco que o ar condicionado. A partir daí, fui dando atenção, quer ao termómetro, quer aos marcos da estrada que indicavam a aproximação a Peniche. A relação entre as duas séries numéricas era directa: a cada dois quilómetros baixava um grau.

Ontem à noite, jantámos fora. Arrependi-me de não ter trazido um sobretudo, um gorro e um abafo de pescoço. A máscara de pano deu-me algum conforto e, por isso, não a tirei até chegar à cama.

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