No momento em escrevo este artigo ainda se mantem acesa a polémica em torno dos caderninhos de exercícios de férias para meninos e para meninas da Porto Editora. Conheço a matéria mais pela polémica gerada nas redes sociais do que pelos livrinhos, que nunca vi a não ser de esguelha. Ao que parece, um é azul e o outro rosa, cores com que os pais marialvas identificam o menino e a menina. Pior do que isso, os caderninhos propõem, para os meninos, tarefas cognitivamente complexas, estereotipicamente associadas a papéis masculinos socialmente valorizados, e, para as meninas, o inverso.

Ora, num país em que o analfabetismo é uma marca cruel e visível em todos os estratos sociais e em todos os níveis de escolaridade, em que o desemprego jovem é elevadíssimo e os novos empregos são escravatura camuflada, em que o Estado está no bolso dos grandes interesses corporativos e dos velhos e novos muito ricos, em que não há lei e a que há é confusa ou não se cumpre, desgraças domésticas para não falar das muitas ameaças globais, os polémicos caderninhos apareceram a ocupar o papel da grande distração nacional geralmente atribuido ao futebol e a acontecimentos menores, como os festivais musicais e as peregrinações a Fátima. O assunto, que para mim vale tanto como o queimar dos soutiens das feministas dos anos 70, parecia ter acabado depois de a editora suspender o lançamento dos polémicos caderninhos. Parece que não. 

Também parece é que há cada vez mais pessoal a dizer por aí, nas tascas e no Facebbok, que o que nos faz falta é um Trump, que é como quem diz um Salazar, para acabar com esta merda toda. Esse é um caminho perigoso, mas não se pode deixar de reconhecer o asco que provoca o simplismo, a insipidez e o extremismo dos temas fracturantes. Confesso que me assusta quando os vigilantes do "politicamente correcto" se identificam com os que justificam e apoiam o Maduro e a Coreia do Norte e outras desgraças do nosso século. E pergunto-me: aonde já vi isto? Aonde isto vai parar? E concluo que o mundo é um lugar muito perigoso.

Então, que não se fale mais das coisas do mundo e voltemo-nos para coisas reais, por exemplo para os meus gatos.

A bem dizer, os meus gatos não são meus; são apenas gatos a quem dou acolhimento. Vão e veem livremente. Muitos, talvez dezenas, nasceram por perto, foram criados aqui e, passado um ano ou dois, desapareceram para não mais voltar.

Actualmente, Bastet seja louvada!, só dou acolhimento a 5, que isto de ter que gerir um orçamento, garanto-vos, não é brincadeira.

Sobretudo os gatos, o Tixa, o Caracol ('Gay') e o pequeno Donald, estão numa fase em que quanto mais comem e mais engordam, mais exigem, em quantidade e em qualidade. As gatas, a Chixa e a Amarela (a mãe dos dois 'lagartixas'), comem bem mas, de quando em vez, ausentam-se, dão longas passeatas e vão à caça. Quando lhes ponho comida, os machos são os primeiros ao ataque (é a sua vantagem no 'espaço público'), enquanto elas, um pouco recuadas e discretas, esperam pelos lugares que eles deixaram vagos (familiaridade com o 'espaço privado'). 

Se fosse politicamente correcto, deveria matar um macho e impor a igualdade física do género, ficando de bem com a Comissão, mas mal para o Partido dos Animais. Ora, pensando que o 'Gay' talvez não conte por jogar nas equipas da 3ª divisão, que tem imensas variantes de identidade de género, deixei ficar as coisas como estão. O júnior dos machos, o Donald (em honra do seu homónimo americano com pêlo da mesma cor), é um maluco espalha-brasas narcisista e, pela evolução que o seu caso está a tomar, está a encaminhar-se, em termos de identitários, para um perfil sexual auto-erótico. Afinal de contas, até as duas fêmeas são diferentes: a Amarela é discreta, apagada e de uma sobreprotecção placentária - La Mama - a mãe dos tixas, a mãe e avó do Donald e tia do Caracol. A Chixa é muito arrapazada e, depois de lhe ter vindo a idade, ainda não conheceu macho que os das redondezas só aparecem aqui a correr atrás da Amarela, trepando atrás dela pelos sobreiros acima a chorar como bebés.

Fiz bem em não tomar decisões precipitadas. Cada um tem a sua identidade e nisso eu não me meto, é lá com eles. Afinal o género conta muito pouco para a identidade. A única coisa que sei é que dois têm os tomates para dentro (invaginados como se diz em linguagem médica), dois têm os tomates para fora (evaginados) e um tem os tomates a meio caminho, hesitantes como é próprio da idade. O resto são diferenças de temperamento - devidas talvez aos seus recursos pedagógicos "adotarem e projetarem uma imagem" não equilibrada e estereotipada das gatinhas e dos gatinhos . 

O País está cheio de boas consciências vigilantes da consciência alheia, já o meu pai me falava disso quando eu era pequenino. Além de haver a Pide, a Censura e a Legião, eram aos milhares ou milhões os informadores e as paredes, ao que dizem, também tinham orelhas. Coisas velhas, herdadas das instituições católicas de há séculos que lutavam pela pureza da fé. Onde se terão metido os informadores depois do 25 de Abril?

Desconfio que ainda vou ser denunciado por usar pratos de cores diferentes para alimentar os gatos. Que culpa tenho que os hipermercados não vendam pratos cinzentos, a cor em que este País se está a tornar?

 

 

Quanto a livros, por mim já fiz uma pira de fogo com os livros para gatos da Porto Editora. Os livros chegam a ser tão maus para os bichos como são para os humanos. Nada de livros! Pronto! Acabou-se! Durmam os vossos sonhos metafísicos até a campaínha vos chamar para refocilarem na manjedoura. 

Quanto à questão do orçamento, não por causa do orçamento mas por causa da igualdade do género, vou impor quotas alimentares para os gatos não comerem mais que as gatas. Tenho que arranjar pratos separados, um medidor de comida e trelas para manter cada um no seu prato.

E assim teremos uma sociedade igualitária na quinta dos animais. 

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Tenho um quadro a giz num lugar a que chamo a minha cabeça. Não é bem "na cabeça", é num lugar atrás da nuca não sei bem a que distância, onde eu rascunho os meus pensamentos e guardo os meus apontamentos da escrita que nunca farei. É um quadro a giz embora não seja bem quadro nem tenha giz. É uma maneira de falar para dizer que vou escrevendo coisas por cima de coisas. Se escorrego e roço com o braço no quadro que tenho na cabeça, lá se vai o registo de um pensamento, de um modo de sentir ou de um dado preciso referente a qualquer coisa que já foi importante - um número de telefone, uma senha informática, o título de um livro, uma data, o comprimento de qualquer coisa que deverei comprar à medida, a referência de um produto. 

Isso é assim quase todo o ano. Mas há dias em que não. O lugar do quadro a giz transforma-se num cubículo de projecção de filmes mudos. Não são bem filmes, mas colecções de restos de película colados uns aos outros à toa. São mudos de palavras, sejam elas apenas faladas ou escritas como nas legendas. Não lhes presto muita atenção. Se me refugio nesse canto da cabeça é porque está tudo às escuras e não entra lá o ar de Agosto.

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Não foram vários meses de silêncio e de vida claustral, foram vários meses de hibernação. O carro esteve tanto tempo parado que, certo dia, fui por ele e não pegou. No que me diz respeito, não é que me tenha falhado alguma funcionalidade biológica, mas comecei a considerar o corpo e a actividade física como abstractos, isto é desligados da sua materialidade. De certo modo, tinha recuado no meu tempo biológico àquela circunstância juvenil de quem vive na abstracção geométrica de uma cidade e na abstracção de uma agenda profissional. Mesmo fazer exercício físico é uma abstracção de exercício. Toda a realidade "real" se perde na hiper-realidade virtual dos jogos mentais que alimenta a contemporaneidade e a psicopatologia da presente era.

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Ora, fora a isso mesmo que eu tentara fugir quando me retirei da vida da cidade para a vida do campo. Foi para reencontrar o corpo na sua materialidade, para reencontrar a terra, para reencontrar a vida e recuperar a realidade.

 

O Tremontelo e toda a actividade que lhe está associada  proporcionam a satisfação desses quesitos. Mas, sempre que chega o Inverno, há mais vida de casa, o fastio da solidão que decorre na eternidade dos cinco dias úteis da semana, o silêncio assolador das árvores despidas, o sedentarismo e a compulsão a comer e a dormir a desoras.

 

Ontem não foi assim: choviscara durante quase todo o dia. À noite, depois do jantar, abri a janela cá de cima para deixar entrar um pouco de ar fresco, porque a casa, com todas as janelas fechadas quase todo o dia, tinha abafado. Veio-me um cheiro a terra húmida tão intenso que me enebriei. O perfume das rosas descobri-o depois, a subir em espiral. Tomei um banho frio antes de me deitar. A água quente fora desperdiçada em lavagens e não houve tempo para o escasso sol repor o nível térmico do depósitos. Deitei-me experimentando todos os meus sentidos, inclusive a audição do concerto de melgas, e comecei a expurgar as minhas entidades conceptuais. A realidade, finalmente, voltou.

 

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Não é por falta de outros assuntos sobre que pensar. Há-os, e há-os de mais. Basta ver o estado calamitoso em que está este nosso mundo, a falta de alternativas credíveis para este nosso país e os contextos desta nossa vida, os nossos, os das nossas famílias e os dos outros. Mas o assunto que realmente me tem dado tantas voltas, quer à cabeça, quer ao estômago, é o mundo. Sim, o mundo.

Se dissermos esta palavra de viva voz, repetida e isoladamente, mesmo que a voz seja interior, acaba por se enraizar no nosso sentir uma estranheza radical. Digo 'radical' em sentido etimológico, daí o redundante verbo 'enraizar'. A estranheza que sinto começa pelo esvaziamento do sentido da palavra, mas o que quer mundo dizer?, e acaba na palavra ela mesma, na sua materialidade fonética que acaba por ser recebida como se de palavra estrangeira se tratasse.
 
A tudo isto chamo o estranhamento do mundo.
 
Para recuperar o velho, ou um novo, sentido da palavra, adoptei um método que consiste em verificar se a palavra contrária oferece um sentido concreto, compreensível e familiar. Verificando que tal sentido existe e é compreensível, infere-se pela sua negação o sentido da primeira.
 
E é esse o caso e a palavra é 'imundo'. Imundo é aquilo que é sujo, porco, desorganizado, desarrumado. Equivale a outra palavra que tem a sua origem no grego antigo, o 'caos'.  Procedendo deste modo, retomava a acepção clássica do termo 'mundo' que mais não poderá ser que tudo aquilo que é limpo, asseado, organizado e arrumado. O mundo é o modo como nós limpamos e embelezamos a realidade. "O mundo não é o que existe, mas o que acontece."(Mia Couto, O Último Voo do Flamingo)
 
O Génesis dá-nos conta de como deus (ou Elohim, 'os deuses') criou o mundo. Na realidade a Bíblia não nos diz que deus (ou os deuses) criou a realidade que existe. Ele (ou eles) criou o mundo pondo ordem no que já havia, separando o céu da terra, a luz das trevas, dividiu as águas deixando umas por cima e outras por baixo do firmamento, da terra extraíu as ervas e as alimárias, pôs candeias no firmamento, umas para iluminar o dia, outras para iluminar a noite e até transformando a natureza selvagem num jardim, o paraíso do Éden.
 
Deus (ou os deuses) criou o homem 'à sua imagem e semelhança '. O barro de que fez o molde já existia, o Geppetto divino limitou-se a soprar lá para dentro, em geito de lhe dar corda, para que o simiesco boneco se animasse e à sua imagem e semelhança se pusesse também a criar mundos.
 
Tal como deus tem o seu mundo, cada grupo social, cada indivíduo humano tem o seu mundo próprio. O mundo é a forma como cada um organiza a realidade estranha, o caos primitivo, tudo o que pre-existe ao nascimento da mente. A morte e o desaparecimento de civilizações são o 'fim do mundo', não o fim da realidade que continuará a ser o que é, independente da vontade de deus, das civilizações ou dos indivíduos.
 

Entre a sua criação e o seu fim, o mundo de alguém é o lugar da sua passagem e está inexoravelmente associado ao curso do tempo e ao fluxo da sua consciência. Na idade média, mundo e século correspondiam-se, eram o mundo das coisas humanas e temporais cá de baixo, contraposto ao mundo das coisas divinas lá de cima. "Mas Ele seguiu dizendo-lhes: “Vós sois daqui de baixo; Eu Sou lá de cima. Vós sois deste mundo; Eu deste mundo não sou. " (João, 8,23)

Mundo tem também um sentido cosmológico, é todo o universo físico visível. O mundo físico não tem limites precisos, acaba na última linha de horizonte que o nosso olhar enxerga. Para uns, um cubículo reduzido é quanto lhes basta para viajar por esse mundo fora, enfrentar toda a espécie de riscos e desafios, aventurar-se por ambientes inóspitos, provar alimentos exóticos, ver ambientes e costumes nunca vistos antes. Outros vão lá mesmo que as energias se esgotem na viagem e a visão se turbe com o cansaço. Outros sentam-se a ver filmes e programas televisivos. Confesso que sou daqueles para quem um pequeno lugar dá para conhecer o mundo todo e que se afadigam com as viagens e os transportes. 
 
Criar um mundo, para um ser humano, pode ser tudo e pode ser quase nada. Arte, poesia, técnica, economia, guerra, política, educação, ciência, música, entretenimento são modos de apresentação dos mundos criados pelo homem. 
 
A história dos mundos é uma história de criação e de destruição. Um mundo desaparece quando é apagado da memória.E a história humana é uma história de destruições irreversíveis como documentam, para referir apenas uma ínfima parte, a destruição do Serapeu e da Biblioteca de Alexandria pelos cristãos a seguir ao brutal assasínio de Hepatia, o extermínio de livros pela Inquisição, a destruição de templos e cidades maias, aztecas e incas, pelos cristãos espanhóis, o saque e a destruição de livros judaicos pelo III Reich, a destruição das estátuas de Buda pelos talibãs, a destruição pelo Estado Islâmico do templo de Baal-Shamin, em Palmira, e de outros sítios históricos e culturais do Iraque. O fenómeno é minuciosamente analisado no romance distópico de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, que mostra que o que se pretende destruir é a memória, fazer desaparecer um mundo ou parte dele. 
 
A alternativa da destruição, quando esta não basta e há maneiras de continuar a preservar a memória, é o silenciamento que assume diferentes formas, desde o lápis azul da censura fascista portuguesa, passando pelas conversões em massa, a confissão e a denúncia, e desaguando no massacre de populações inteiras, de etnias e de comunidades religiosas. Uma forma recente e mais "civilizada" de silenciamento é a circulação de notícias falsas, comentários mirabolantes e o descrédito da imprensa da Nova Ordem engendrada, entre outros, por Trump e Erdogan.
 
"Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade e a hiperexcitação." F. P., O Livro do Desassossego)
 
Quando deus (ou os deuses) soprou para dentro do boneco de barro, que era um símio com uma mente evoluída, o ar pestilento que exalou ia completamente infectado de código malicioso. A mente de Adão, que até aí representara a realidade, passou a criar mundos virtuais. A história do homem é a história de uma queda inicial. Mas a queda continua em aceleração e é vertiginosa: no fundo do abismo encontram-se as redes "sociais", as personalidades sombrias, a ilusão do conforto, do consumo e da fuga à realidade como formas artificiais de felicidade e a exaustão dos recursos naturais. 
 
lago
 
A seguir ao homem virá a sociedade de máquinas inteligentes e conscientes. Seremos todos, nós e os nossos mundos, esquecidos. O deus "ex homine" implodirá e será substituído pelo verdadeiro deus "ex machina". 
 
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